A importância de Jeremias – Pele

arquivo pessoal


Uma história, seja ela qual for, precisa, além de entreter o leitor, transmitir algumas mensagens ou deixar algum ensinamento.


Historicamente considerada atração para crianças, principalmente aqui no Brasil, os quadrinhos nacionais estão crescendo e, por ser um excelente meio de comunicação, consegue atingir públicos mais novos.

E por ser ainda um meio mais completo com imagem, textos, som e fazer com que o leitor use sua imaginação, os quadrinhos conseguem proporcionar ao leitor uma percepção mais abrangente de certos assuntos.

Como no caso de Jeremias – Pele a 18ª Graphic Novel com o selo MSP (Mauricio de Souza Produções), o criador da Turma da Mônica.

Por muitos anos as histórias da Turma da Mônica foram escritas para um público mais infantil. Entretanto, as novas publicações com o selo MSP, abriram a possibilidade de explorar um pouco mais cada personagem e levar as histórias para um novo público.

Hoje, as graphics novels da turma abordam temas mais adultos, com traços e enredos de outros artistas brasileiros, selecionados para, além de homenagear Mauricio de Souza, explorar as facetas cujo cada personagem possui.

Jeremias é um dos personagens mais antigos da Turma da Mônica e por muitos anos foi o único negro do grupo. Ano passado, em 2019, ganhou uma história solo completa como protagonista.

Escrita por Rafael Calça e desenhada por Jefferson Costa, o tema central da história é focado no racismo sofrido pelo personagem e claro, por jovens grande parte dos jovens negros.

Ainda que certos casos ocorram de forma velada, sem ser explícitos, os acontecimentos com o personagem central demonstram como coisas que parecem simples, vem disfarçadas de preconceito devido a cor da pele.

E esse é o tipo de situação que pode atrapalhar as esperanças e as capacidades de um jovem se desenvolver ou se destacar por alguma habilidade que possui.

É muito comum negros não serem considerados “aceitáveis” para um trabalho ou profissão devido a cor da sua pele.

E a história de Jeremias não se prende apenas aos problemas do garoto, mas aponta também as dificuldades dos pais em tentar fazer com que o filho entenda como o mundo pode ser cruel com quem é “diferente”.

Os pais do garoto, por já terem passado por situações parecidas, sabem lidar melhor, mas ainda sentem uma certa dificuldade em explicar como reagir ou como seguir em frente nessas situações.

Por isso a escolha de dois negros para contar essa história. Alguns dos casos que ocorrem com Jeremias fizeram parte da vida dos dois autores.

A importância da representatividade

Jeremias foi vencedor do prêmio Jabuti, na categoria de melhor História em Quadrinhos de 2019. Além da grande qualidade artística no trabalho dos dois autores, a forma como as situações são apresentadas demonstra que a realidade pode ser bem pior do que imaginamos.

Muitas pessoas não sabem como uma “brincadeira” inocente ou uma palavra errada podem afetar quem sofre com o preconceito, principalmente quando falamos de uma criança.

Personagens negros sempre foram a minoria nos quadrinhos, sendo na maioria dos casos aparições como coadjuvantes, ainda que muitos deles sejam extremamente poderosos.

Pantera Negra, Super Choque, Blade, Falcão Negro, Tempestade, Bishop e o Lanterna Verde, John Stewart, são alguns dos exemplos.

E mesmo que alguns deles sejam os principais em suas histórias, como no caso do Pantera, infelizmente ficaram por muito tempo sendo apenas conhecidos pelo público mais fiel dos quadrinhos.

Ainda hoje podemos observar e, assistindo as entrevistas dos dois autores, como os negros se sentem pouco representados nas mídias.

O próprio Jeremias aparece em poucas histórias da Turma da Mônica e na maioria das vezes com poucas falas.

Felizmente agora o grande público tem a oportunidade de conhecê-lo um pouco mais e ver como o racismo é um mau a ser combatido.

Personagens assim deveriam estar mais presentes nas histórias para crianças pois, além da representatividade, elas poderiam entender mais facilmente como as diferenças são comuns.

E sendo um país tão miscigenado como o nosso é absurdo que casos assim ainda ocorram. Por sorte parece que Mauricio de Souza está atento aos problemas sociais que nos cercam e está levando esses temas para suas histórias.

Jeremias tem tudo para se tornar um marco dos quadrinhos nacionais e ajudar no aumento de histórias mais sérias e com qualidade, trazendo cada vez mais leitores e acabando com a ideia de que histórias em quadrinhos são “coisas para crianças”.

A nona arte ganha cada vez mais força no Brasil.

Um dia quem sabe, em um futuro próximo, chegaremos ao nível americano e europeu.

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