A reflexão no filme Coringa



por: Vagner Melo

Se uma das funções de uma obra de arte é abrir espaço para reflexões dentro de uma sociedade ou meio ao qual está inserida, o filme “Coringa” consegue fazer isso de forma grandiosa.

No cinema, onde o alcance do público é maior, existe uma vantagem com relação as outras formas de arte, a sinergia criada entre filme e público torna a experiência fílmica ainda mais intensa.

Por isso, muitos filmes geram debates intensos sobre suas intenções ou mensagens que querem passar.

Dentro do universo dos quadrinhos o Coringa é talvez o vilão mais aclamado e amado pelo público, sendo até mais conhecido do que muitos heróis existentes por aí.

E levar o personagem para um público ainda maior, que pode até conhecê-lo pelo nome, mas não conhece sua história ou coisas da qual ele é capaz de fazer pode chocar um pouco, ainda mais dependendo da forma como isso pode ser mostrado.

Para quem for ver o novo filme, focado no palhaço do crime, e quer conhecer a nova “versão” usada para contar a origem do vilão, poderá ficar um pouco desconcertado.

Dirigido por Todd Phillips e com Joaquim Phoenix no papel principal, “Coringa” apresenta uma Gotham ainda mais decadente, se comparado as versões mostradas na trilogia Batman, do diretor Christopher Nolan.

Essa decadência influenciou, em grande parte, a violência e o crime que consumiu a cidade e potencializou o que havia de pior em algumas pessoas.

Dentre elas o personagem Arthur Fleck (Joaquim Phoenix), futuro Coringa, que além dos problemas psicológicos, ainda passa por todo um processo que, com o tempo, vai diminuindo qualquer possibilidade de melhora.

Quem for ao cinema esperando por entretenimento esqueça. O filme é desconfortável do começo ao fim.

Inserindo quem assiste ao mundo particular e problemático do vilão e mostrando como uma sociedade pode estimular o que há de pior nas pessoas.

As acusações sofridas pelo filme, dizendo que ele faz apologia à violência e pode incitar algumas pessoas a agirem da mesma forma que o vilão não parece ser a mensagem a ser mostrada no filme.

Afinal, a violência e a quantidade de crimes bárbaros que vemos por aí ultimamente, seja na TV, internet ou rádio não foram exatamente motivados por um filme. Tudo já acontece através das atitudes humanas.

O Coringa sempre foi um personagem que nunca demonstrou se importar com ninguém. A diferença desse “novo” para os antigos é que o Coringa Interpretado por Joaquim Phoenix tem sua “formação” muito mais explorada.  

Enquanto que no interpretado por Jack Nicholson surgiu um personagem mais caricato e voltado mais para o lado cômico, esse é introspectivo e não temos nem um gracejo ou piada.

Quando foi a vez de Heath Leadger no papel, sendo ele o mais adorado até aqui, o Coringa já surgiu como alguém pronto e que não via limites para o que pretendia fazer, querendo apenas “ver o circo pegar fogo”.

Talvez o que falte nesse novo Coringa seja a sua contraparte, o Batman, para que seja mostrando um pouco de esperança as pessoas.

Faltou a esperança de que algo melhor está por vir, a luz em um mundo escuro, alguém que estará lá para salvar o dia e ajudar as pessoas de bem.

Coringa os Reflexos da atualidade


Dizer apenas que um filme estimula a violência, por apresentar certas cenas que podem chocar quem o assista é ignorar muitas das coisas que vemos por aí, mas que não são mostradas e sim aproveitadas para vender.

Todd Philipps choca quando mostra a violência crua com que um ser humano pode atacar outra pessoa, ainda que seja apenas para se defender.

E talvez seja essa a ideia por de trás de toda a história, além de mostrar uma pessoa com problemas psicológicos, focar no quanto uma sociedade sem esperança pode gerar “líderes” distópicos.

Coringa sempre teve os seus capangas aqui, trazido para o mundo atual, poderia ser interpretado como os seus seguidores.

Pessoas que seguem, através de uma imagem, pensamento ou apoiam atitudes, acreditando que aquilo é o correto, mas não veem os problemas que aquilo pode gerar.

E não precisamos de um filme para ver isso, basta conhecer um pouco de história para conhecer as barbaridades que já foram cometidas entre os humanos.

Ainda que o cinema consiga influenciar certos comportamentos, coloca-lo apenas como um simples gatilho para atitudes reprováveis é ignorar certas características do humano.

O Coringa seria apenas a união de todos os elementos defeituosos que apresentamos, unido, ainda, aos problemas psicológicos que tiram todo o discernimento de certo ou errado.

O filme logo se tornou um bom motivo para várias discussões, focadas não apenas no personagem em si, mas na construção do personagem e se ele seria algo real.

Em quantas pessoas existem ao redor do mundo e que são deixadas de lado pela sociedade por não apresentarem o padrão vigente.

O que mostra como os quadrinhos conseguem criar personagens complexos que merecem um maior cuidado ao serem levados ao grande público, principalmente na forma como são mostrados.
Costumamos, ao ver um filme, nos colocar no lugar do personagem principal, e talvez seja por isso que ele incomoda tanto.

Estar no lugar de alguém que apresenta características sociais que confrontam nossos valores, mas que em alguns momentos você até entende suas motivações.

Na HQ de 1988 “A piada Mortal” de Alan Moore e Brian Bolland, já havia sido criada uma história para a transformação que gerou a loucura do palhaço do crime.

Vemos um cara relativamente comum, preocupado com seus problemas pessoais que após um dia ruim e um acidente sofrido, se transforma em um assassino lunático que não se importa com nada.

No filme seguimos o mesmo ponto, um cara comum com problemas e que em um certo momento da sua vida se transforma em outra pessoa.

Já vimos todo esse cenário mostrado antes e ainda assim muitos adoram o personagem, mas apenas agora, em um filme solo, discutiu-se a violência que ele pode conter.

É possível que toda a crítica e debate ocorra pelo personagem não ter sido pensado apenas dentro de um plano colorido como são os quadrinhos, mas no mundo real e com poucas pessoas com lado bondoso.

Talvez o que faltou possa ser explorado em uma possível continuação, o que duvido que acontecerá, mas seria interessante ver como reagiria a cidade de Gotham sem ter alguém para defendê-la ou como seria o Batman nesse cenário.

Coringa fez o público refletir, ainda que precise explicar certas coisas e conter os seus erros, mas como obra fílmica funcionou muito bem.

Coringa não é um filme para influenciar pessoas, mas mostra mais a fundo o pior lado que os seres humanos podem alcançar.

Uma consequência dos problemas que vão se acumulando e ninguém parece se importar, ou vemos e não fazemos nada, por estarmos anestesiados com tantas coisas ruins.





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