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Como ler um filme





Você já parou para pensar sobre um filme?

Costumamos ver um filme, mas em muitos casos focamos apenas na parte superficial de uma produção cinematográfica, como os efeitos e cenas de ação.

Em muitos casos são as capacidades técnicas apresentadas que tornam um filme bom, ao menos para grande parte das pessoas

Mas para quem quer aprender a ler um filme é interessante entender certos aspectos que o rodeiam.

O primeiro passo é entender o tempo e espaço que ele ocupa. Não apenas o tempo do filme em si, mas a situação do momento “real” em que vivemos.

Por exemplo, no atual momento estamos cercados por filmes de super-heróis baseados nas histórias em quadrinhos.

E temos alguns grandes nomes do cinema, como o diretor Martin Scorsese, que recentemente criticou a Marvel alegando que eles não fazem cinema. 

Pensando nisso, o que seria de fato o cinema?

O que é preciso para um filme ser bom e virar um clássico?

No caso dos filmes inspirados em quadrinhos, além dos efeitos especiais, necessários para a proporcionar uma aproximação maior com o que foi pensando dentro das HQs, temos, talvez, um aspecto mais psicológico e social.

Em uma época onde as relações pessoais definham e estamos em um mundo onde a falta de paciência gera a intolerância em vários níveis, sejam religiosos, de gênero ou raciais, precisamos mais do que nunca de um “herói” que nos salve desse mundo caótico.

Mas isso não parece ser consenso. Muitos filmes de heróis não se aprofundam em temas mais relevantes, ainda que apontem certos aspectos da nossa sociedade.

Suas motivações são baseadas praticamente na luta do bem contra o mal, tema que sempre norteou as histórias de heróis.

Entretanto o sucesso desses filmes pode ser motivado pelo desejo de voltar no tempo, quando éramos crianças e tudo era mais simples. As coisas que imaginávamos se tornaram “possíveis” graças ao cinema.

Por isso, ter um vilão convincente é tão ou mais importante para o filme do que o próprio herói.

Nesse aspecto é preciso certas motivações, o que só é possível com o roteiro bem escrito e que leve o personagem do ponto A para o Ponto B. E aí entramos no ponto em comum de todos os filmes, o roteiro.

É no roteiro que um filme terá o apoio necessário para transmitir uma mensagem, criar um diálogo interessante e aproximar a vida comum, de quem assiste, do que é apresentado em tela, com os personagens.

Ler um filme é compreender o que o diretor quer transmitir dentro de uma cena, um enquadramento, as escolhas da trilha musical e outros possíveis elementos que compõem toda a história a ser contada.

Hoje assistimos alguns filmes e os chamamos de antigo ou velho, mas devíamos tentar observá-lo com o olhar da época em que ele foi lançado.

É como os filmes que retratam a 2ª Guerra Mundial, sem a caracterização não for próxima ao que sabemos ou aprendemos, algo está errado.

Obviamente que para os jovens, menos os cinéfilos de plantão, ver um filme que não tenha ação é quase um martírio. Se for em preto e branco então nem se fala, por isso um bom roteiro é fator essencial.

Usando de bom exemplo para filmes em preto e branco e que chama muita atenção é o famoso Tempos modernos de Charlie Chaplin, muito usado pelos professores nas aulas de história.

O filme mostra um trabalhador que sofre com os reflexos da Revolução Industrial. Por isso da sua utilização, para poder explicar as mudanças que a sociedade viveu naquele período.

Mas ainda que o filme seja completamente mudo, as cenas são bem planejadas e claras, fazendo com quem assista saiba o que está se passando com o personagem principal.

E incrivelmente o filme continua atual e podemos traze-lo para o agora. Olhando hoje, temos a necessidade de estar sempre produzindo algo, como era no período da revolução industrial.

O que mudou foram apenas as formas de se produzir. Ainda que seja necessário o trabalho braçal, como apresentado no filme, encontrar soluções utilizando a criatividade é o que vem dominando o atual mercado de trabalho.

Ou seja, continuamos com a necessidade de produzir o tempo inteiro, o que gera alguns dos problemas atuais que tempos, como o estresse e desanimo.

É preciso estar sempre 100% em tudo. No trabalho, em casa, na escola. É quando vemos muitas pessoas frustradas por não conseguirem alcançar um objetivo.

A pressão por resultados ainda permeia a nossa sociedade.
Tempos modernos chama atenção, além da crítica social, pelo seu personagem principal, um homem simples que procura por trabalho.

É necessário que o ator dê, além de seu rosto, certas características para compor uma personagem, como a personalidade, hábitos, maneiras de pensar ou os jeitos de se comportar.

Tudo isso para que ele se aproxime de quem irá ao cinema ver o filme. Os valores morais ou até a falta deles, são partes fundamentais para nos identificarmos.

Exemplo maior, voltando aos filmes de heróis, é o personagem de quadrinhos Clark Kent/Superman.

Nos identificamos com ele porque inicialmente ele parece ser um cara comum, mas em segredo possui um poder extraordinário e que pode salvar o mundo, se tornando um exemplo e motivo de inspiração para as outras pessoas.

Quem de nós não gostaria de ser assim?

Além de roteiros, efeitos e personagens convincentes, as roupas ajudam a caracterizar um personagem.

As vestimentas ajudam a compor um personagem dando a ele, além de características do seu tempo e espaço, a personalidade necessária para que o personagem seja crível aos olhos de quem o observa.

Da mesma forma que você, ao utilizar determinado tipo de roupa, passa um modelo de imagem para as pessoas que estão ao seu redor.

Lembremos o Dr. Brown da trilogia De volta para o futuro com o seu jaleco e estilo “cientista maluco”. Ninguém o leva a sério, tirando o seu amigo Martin McFly, mas dentro do seu contexto fílmico ele se torna real.

Indiana Jones usa chapéu, bolsa e chicote, elementos que hoje são indissociáveis do personagem. E temos ainda o smoking do 007 e as roupas extravagantes do pirata Jack Sparrow em Piratas do Caribe.

Você sabe ou ao menos entende, se conhece essas histórias, o que elas significam e como estão ligadas aquele personagem.

Mas e você como faz para “ler um filme”?

Após sair da sala de cinema você apenas procura um lugar para ir comer? Ou fica repassando mentalmente a história e tentando entender cada frase dita?

Logicamente que muitos filmes são puro entretenimento e servem apenas para distração do atual cenário conturbado ao qual vivemos.

Mas se você sair se remoendo do cinema, tentando falar do filme com alguém, algo de diferente aconteceu e não foi apenas puro e simples prazer de estar ali por duas horas.

No geral são muitas as coisas a serem observadas em pouco espaço de tempo.

É preciso também um certo repertório por parte do observador, para poder entender referências ou até possíveis citações, portanto talvez seja necessário ver um filme mais de uma vez.

Entretanto ler um filme é um ótimo exercício para obter senso crítico. será como trabalhar com o que gosta, afinal quem não curte um bom filme?





A reflexão no filme Coringa



por: Vagner Melo

Se uma das funções de uma obra de arte é abrir espaço para reflexões dentro de uma sociedade ou meio ao qual está inserida, o filme “Coringa” consegue fazer isso de forma grandiosa.

No cinema, onde o alcance do público é maior, existe uma vantagem com relação as outras formas de arte, a sinergia criada entre filme e público torna a experiência fílmica ainda mais intensa.

Por isso, muitos filmes geram debates intensos sobre suas intenções ou mensagens que querem passar.

Dentro do universo dos quadrinhos o Coringa é talvez o vilão mais aclamado e amado pelo público, sendo até mais conhecido do que muitos heróis existentes por aí.

E levar o personagem para um público ainda maior, que pode até conhecê-lo pelo nome, mas não conhece sua história ou coisas da qual ele é capaz de fazer pode chocar um pouco, ainda mais dependendo da forma como isso pode ser mostrado.

Para quem for ver o novo filme, focado no palhaço do crime, e quer conhecer a nova “versão” usada para contar a origem do vilão, poderá ficar um pouco desconcertado.

Dirigido por Todd Phillips e com Joaquim Phoenix no papel principal, “Coringa” apresenta uma Gotham ainda mais decadente, se comparado as versões mostradas na trilogia Batman, do diretor Christopher Nolan.

Essa decadência influenciou, em grande parte, a violência e o crime que consumiu a cidade e potencializou o que havia de pior em algumas pessoas.

Dentre elas o personagem Arthur Fleck (Joaquim Phoenix), futuro Coringa, que além dos problemas psicológicos, ainda passa por todo um processo que, com o tempo, vai diminuindo qualquer possibilidade de melhora.

Quem for ao cinema esperando por entretenimento esqueça. O filme é desconfortável do começo ao fim.

Inserindo quem assiste ao mundo particular e problemático do vilão e mostrando como uma sociedade pode estimular o que há de pior nas pessoas.

As acusações sofridas pelo filme, dizendo que ele faz apologia à violência e pode incitar algumas pessoas a agirem da mesma forma que o vilão não parece ser a mensagem a ser mostrada no filme.

Afinal, a violência e a quantidade de crimes bárbaros que vemos por aí ultimamente, seja na TV, internet ou rádio não foram exatamente motivados por um filme. Tudo já acontece através das atitudes humanas.

O Coringa sempre foi um personagem que nunca demonstrou se importar com ninguém. A diferença desse “novo” para os antigos é que o Coringa Interpretado por Joaquim Phoenix tem sua “formação” muito mais explorada.  

Enquanto que no interpretado por Jack Nicholson surgiu um personagem mais caricato e voltado mais para o lado cômico, esse é introspectivo e não temos nem um gracejo ou piada.

Quando foi a vez de Heath Leadger no papel, sendo ele o mais adorado até aqui, o Coringa já surgiu como alguém pronto e que não via limites para o que pretendia fazer, querendo apenas “ver o circo pegar fogo”.

Talvez o que falte nesse novo Coringa seja a sua contraparte, o Batman, para que seja mostrando um pouco de esperança as pessoas.

Faltou a esperança de que algo melhor está por vir, a luz em um mundo escuro, alguém que estará lá para salvar o dia e ajudar as pessoas de bem.

Coringa os Reflexos da atualidade


Dizer apenas que um filme estimula a violência, por apresentar certas cenas que podem chocar quem o assista é ignorar muitas das coisas que vemos por aí, mas que não são mostradas e sim aproveitadas para vender.

Todd Philipps choca quando mostra a violência crua com que um ser humano pode atacar outra pessoa, ainda que seja apenas para se defender.

E talvez seja essa a ideia por de trás de toda a história, além de mostrar uma pessoa com problemas psicológicos, focar no quanto uma sociedade sem esperança pode gerar “líderes” distópicos.

Coringa sempre teve os seus capangas aqui, trazido para o mundo atual, poderia ser interpretado como os seus seguidores.

Pessoas que seguem, através de uma imagem, pensamento ou apoiam atitudes, acreditando que aquilo é o correto, mas não veem os problemas que aquilo pode gerar.

E não precisamos de um filme para ver isso, basta conhecer um pouco de história para conhecer as barbaridades que já foram cometidas entre os humanos.

Ainda que o cinema consiga influenciar certos comportamentos, coloca-lo apenas como um simples gatilho para atitudes reprováveis é ignorar certas características do humano.

O Coringa seria apenas a união de todos os elementos defeituosos que apresentamos, unido, ainda, aos problemas psicológicos que tiram todo o discernimento de certo ou errado.

O filme logo se tornou um bom motivo para várias discussões, focadas não apenas no personagem em si, mas na construção do personagem e se ele seria algo real.

Em quantas pessoas existem ao redor do mundo e que são deixadas de lado pela sociedade por não apresentarem o padrão vigente.

O que mostra como os quadrinhos conseguem criar personagens complexos que merecem um maior cuidado ao serem levados ao grande público, principalmente na forma como são mostrados.
Costumamos, ao ver um filme, nos colocar no lugar do personagem principal, e talvez seja por isso que ele incomoda tanto.

Estar no lugar de alguém que apresenta características sociais que confrontam nossos valores, mas que em alguns momentos você até entende suas motivações.

Na HQ de 1988 “A piada Mortal” de Alan Moore e Brian Bolland, já havia sido criada uma história para a transformação que gerou a loucura do palhaço do crime.

Vemos um cara relativamente comum, preocupado com seus problemas pessoais que após um dia ruim e um acidente sofrido, se transforma em um assassino lunático que não se importa com nada.

No filme seguimos o mesmo ponto, um cara comum com problemas e que em um certo momento da sua vida se transforma em outra pessoa.

Já vimos todo esse cenário mostrado antes e ainda assim muitos adoram o personagem, mas apenas agora, em um filme solo, discutiu-se a violência que ele pode conter.

É possível que toda a crítica e debate ocorra pelo personagem não ter sido pensado apenas dentro de um plano colorido como são os quadrinhos, mas no mundo real e com poucas pessoas com lado bondoso.

Talvez o que faltou possa ser explorado em uma possível continuação, o que duvido que acontecerá, mas seria interessante ver como reagiria a cidade de Gotham sem ter alguém para defendê-la ou como seria o Batman nesse cenário.

Coringa fez o público refletir, ainda que precise explicar certas coisas e conter os seus erros, mas como obra fílmica funcionou muito bem.

Coringa não é um filme para influenciar pessoas, mas mostra mais a fundo o pior lado que os seres humanos podem alcançar.

Uma consequência dos problemas que vão se acumulando e ninguém parece se importar, ou vemos e não fazemos nada, por estarmos anestesiados com tantas coisas ruins.