O problema não são as redes, ao menos não totalmente


 

redes sociais

Há algumas semanas a Netflix lançou o documentário “O dilema das redes”, que aponta como as redes sociais influenciam de forma negativa a vida das pessoas.

Entrevistando alguns profissionais que já atuaram no desenvolvimento de muitas dessas redes, o documentário levanta questões sobre como elas são responsáveis por muitos problemas existentes na nossa sociedade atualmente.

Ainda que muitas das coisas apresentadas sejam interessantes e que devem ser levadas em consideração, o documentário é um tanto quanto “tendencioso”.

A impressão que ele aparentemente tenta passar é a de que as redes sociais são as causadoras dos problemas que temos atualmente, quando isso de fato não ocorre.

A verdade é que as redes potencializam os problemas.

E o termo “potencializam”, em destaque, porque com a quantidade de informações disponíveis, o mundo inteiro praticamente conectado, problemas que sempre existiram hoje se tornam mais mundiais.

O avanço tecnológico sempre possibilitou que nossas vidas fossem facilitadas. Isso acontece desde a invenção da primeira ferramenta criada pelo homem para poder caçar e se alimentar até os dias atuais com as inteligências artificiais.

No entanto, se levarmos em consideração tudo o que foi inventado até hoje, teremos o lado bom e o lado ruim em tudo.

Os meios de comunicação de massa que deviam ser utilizados para informar, educar e entreter já fizeram um pouco do trabalho que as redes fazem hoje, entretanto antes da internet surgir o caminho seguia apenas em uma direção.

Com a disponibilidade da internet e a facilidade em se usar smartphones ou câmeras, qualquer pessoa pode trabalhar com informações, sendo produtor de conteúdo, disponibilizar na rede e até criar teorias ou desenvolver raciocínios sem nenhum fundamento.

 

Mais do mesmo, mas diferente

 

Um dos pontos que “O dilema das redes” aponta é que os algoritmos para manter essas redes, analisam e reconhecem cada hábito que possuímos, sabendo exatamente o que indicar para que continuemos conectados pelo maior tempo possível.

Mas de certa forma isso é justamente o que toda empresa quer. Por isso, os altos investimentos em propaganda, publicidade e marketing.

O desenvolvimento dessas três áreas são todos baseados em estudos psicológicos que buscam entender os comportamentos humano, para que assim sejam lançados produtos que atendam um determinado desejo.

Assim como uma rede social, uma empresa tradicional quer que você continue consumindo.

Se somos “produtos” para as redes socias, não passamos também de outdoors ambulantes para grandes marcas. E o pior, ainda pagamos por isso. E ainda que você diga que muitas delas possam trazer conforto, como um par de tênis por exemplo, o valor alto é referente a marca e não ao produto em si.

E não esqueçamos também que quando fazemos uma compra, ao utilizar o cartão de crédito ou debito, estamos informando ao banco onde gastamos nosso dinheiro. E informamos também o governo, ao pedir o CPF na nota fiscal.

Já os grupos de comunicação querem que você continue “ligado”. E por falar em grupos de comunicação.

Os meios de comunicação foram no passado o que as redes são hoje, e se olharmos alguns momentos do século XX vemos que causaram o mesmo mal. Ou cosas bem piores.

Na Segunda Guerra Mundial, por exemplo, os discursos de Adolf Hitler eram transmitidos para milhões de pessoas através do rádio e do cinema. Os americanos também faziam suas propagandas de guerra através dos meios de comunicação.

A polarização política de hoje, já vem de muitos anos, mas agora ela foi ampliada. Racismo e teorias de conspiração agora encontram ecos.

A luta contra o racismo nos Estados Unidos acontece há décadas, mas ainda assim parece ser um problema que demorará a ser resolvido.

As redes aproximam pessoas, mas aproximam também os preconceituosos.

Com relação as fake news, tão em alta nos assuntos de hoje, e que afetam principalmente o mundo da política, grandes empresas de comunicação já manipularam o seu público pensando apenas nos seus interesses.

Basta lembrar do que ocorreu no dia 25 de janeiro de 1984, onde um comício que defendia as eleições diretas para presidente foi noticiado como uma comemoração do aniversário da cidade de São Paulo.

 

O tempo de permanência

 

O Brasil é um dos países que passam mais tempos conectados.

Mas as redes sociais são apenas o novo entretenimento. As gerações passadas também eram criticadas por passar muito tempo na frente da televisão.

 A “geração MTV” era muito criticada por não querer saber de nada e só prestar atenção naquelas “músicas de doido”.

Mas infelizmente isso acontece de forma quase que natural, já que muitos pais colocavam os filhos na frente da TV para que eles fiquem quietos. Atualmente é a tela do celular que atrai a atenção dos pequenos, deixando os pais mais à vontade para outras atividades.

Esses hábitos inocentes de infância acabam por tornar adolescentes e adultos mais propensos a continuarem atraídos pelas telas a sua frente do que atentos para outras atividades. Existem, inclusive, pesquisas apontando que o tempo de atenção das pessoas, que até o ano 2000 era de 13 segundos, hoje baixou para apenas oitos segundos.

 

Sim é preciso rever as formas como utilizamos as redes sociais e como os grupos que as controlam fazem uso delas. 

Limitar, proibir ou sair das redes não parece ser uma solução, apenas uma fuga, afinal muitas das pessoas que passam por nossas vidas, acabamos por encontrar nas redes e ficamos felizes com isso.

“O dilema das redes” pode servir para que as pessoas pensem bem antes de compartilhar ou curtir algo, mas ainda devemos lembrar que o problema são as pessoas e como elas fazem uso da tecnologia, não há tecnologia ou a rede em si.

 

 

 

 




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