Sapiens: Deuses que não sabem o que fazem


por: Vagner Melo 

“Existe algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?”

Essa questão encerra o livro “Sapiens - Uma breve história da humanidade” do historiador e professor israelense Yuval Noah Harari.

O livro publicado em hebraico e lançado incialmente em Israel, ganhou várias traduções ao redor do mundo e se tornou um dos maiores best-sellers dos últimos anos

Longe de ficar apenas contando fatos, Yuval Harari propõe novos conceitos, trabalhando sobre três revoluções que alteraram a forma como a humanidade passou a agir com o passar dos tempos.

Atualmente são poucos os escritores que conseguem, de forma cativante, apontar novas visões sobre o mundo e instigar o leitor até o final do livro.

Por isso Harari vem ganhando muito destaque e se tornando um dos pensadores mais procurado para palestrar no momento.

E pensando na citação acima, de fato, aparentemente é isso o que nos tornamos ultimamente, “deuses” insatisfeitos que não sabem o que fazem.

 

O mundo em nossas mãos

 

Para melhorar a própria vida moldamos a natureza a nosso bel prazer, pensamos apenas em nós mesmos, no desenvolvimento e lucro, e sempre com o argumento de que isso diminuirá nossas próprias diferenças.

Além do meio ambiente alteramos também a biologia dos seres. Já fomos capazes de clonar um animal, lembre-se do caso da ovelha Dolly, e agora queremos mudar a biologia humana.

A ciência é a revolução do momento, e as discussões até aonde ela deve chegar ou quais limites que não podem ser ultrapassados são o foco.

Na maioria dos casos o discurso é o mesmo, fazemos isso ou aquilo no intuito de melhorar a vida das pessoas ao redor do mundo, mas será que melhoramos de verdade?

Hoje a “regra” é ser inovador o tempo inteiro. Existe uma necessidade de estar a todo momento criando, pensando ou desenvolvendo alguma atividade.

Queremos sempre mais, sendo esse, talvez, um dos grandes problemas da atual sociedade. A busca incessante pela felicidade é um dos motivos que possibilitaram o aumento no número de casos de pessoas com depressão ao redor do mundo.

Muitos se tornam obcecados por um objetivo, por resultados, entretanto se esquecem de parar e observar tudo aquilo que já conseguiram conquistar.

 

Sabemos realmente qual o nosso papel no planeta?

A humanidade dominou todas as áreas do planeta através da colaboração mútua. Trabalhar em sociedade, criando meios para sobreviver em conjunto foi o passo inicial para a expansão humana.

Essa união permitiu a proteção dos indivíduos e ainda ajudou a subjugar animais maiores e mais fortes, proporcionado um domínio territorial. Mas o que era apenas uma forma de encontrar alimento e autoproteção, se tornou, com o tempo, um domínio cada vez mais excludente.

Ninguém sabe exatamente como as outras espécies do gênero Homo desapareceram, como o Homem de Neandertal (Homo neanderthalensis), mas a julgar pela tendência para a violência do Sapiens, provavelmente tivemos alguma participação nesse processo.

Em vista disso, regras precisaram ser criadas para se manter a ordem nas sociedades que começaram a surgir. Motivadas principalmente com a concentração cada vez maior de pessoas em um mesmo espaço.

Religião, economia e política são os pilares que sustentam nossa sociedade. Entretanto, cada um desses três aspectos se alterou ao longo da história no controle sobre como as pessoas pensavam o mundo.

Somos a única espécie do planeta capaz de imaginar coisas inexistentes. Por isso acreditamos em certos tipos de salvação ou que elementos criados podem melhorar nossa vida.

Atualmente a economia é o que predomina nas escolhas humanas. Nunca produzimos tanto quanto agora na história humana.

Enquanto isso, as opiniões políticas se baseiam mais em achismos do que em reflexões profundas ou estudos, e nos matamos por motivos religiosos.

Por sermos mais “inteligentes”, acreditamos que podemos fazer de tudo e não encontramos limites para isso. 

Cada vez mais retiramos do meio ambiente, mas não repomos ou trabalhamos para diminuir os excessos que cometemos.

Nunca estamos satisfeitos e, ao invés de ver o presente, buscamos o futuro incessantemente, gerando ansiedade, o que torna boa parte das pessoas infelizes.

A história da humanidade mostra que temos uma enorme responsabilidade com o planeta no qual vivemos. E é preciso refletir sobre essa responsabilidade, pois muito já foi perdido.

Mudar o mundo não iremos, precisamos mudar a nós mesmos internamente e começar a refletir sobre atitudes, situações e o que faremos com o planeta daqui para a frente.

A natureza já está cobrando os juros pelos nossos erros.

Precisamos saber e entender os caminhos que cada escolha traz, do contrário continuaremos a viver como “deuses” que não sabem o que fazem.

Eu vejo o futuro repetir o passado


Você já teve aquela música para chamar de sua?

Aquela que quando toca, não importa aonde você está, você para e quer ouvir e, de alguma forma, fica emocionado.

Músicas tem o poder de mexer com a emoção das pessoas das mais diversas formas. E independente do estilo musical de cada um, uma coisa é certa sempre vai existir uma em especial que irá marcá-lo.

Entretanto há outras que podem não marcar de forma sentimental, mas pelo que ela transmite ou como consegue refletir um pensamento ou ideia.

Na nossa música brasileira temos alguns bons exemplos de músicas escritas há muitos anos, mas que ainda conseguem ser atuais, principalmente quando vemos o atual momento do Brasil.

Estamos em uma época de polarização política, religiosa e de tantas outras coisas que nem sabemos ao certo como tudo começou.
capa do disco ao vivo "O tempo não para"


Mas como diria Cazuza em uma de suas músicas “O tempo não para”.

E O tempo não para!

Sim, o tempo não para “dias sim, dias não, eu vou sobrevivendo sem um arranhão da caridade de quem me detesta”. Não é exatamente assim que nos sentimos atualmente? Sobrevivendo?

Passamos por um momento de tantas indecisões, incertezas e cobranças que parece apenas que “sobrevivemos” dentro do mundo maluco e caótico que nos rodeia. Mas ainda assim seguimos a vida.

E porque “O Tempo não Para” ainda continua atual?

Ouça a música novamente e pensa na frase: “eu vejo o futuro repetir o passado”, pense no nosso atual momento político e na declaração do Deputado Federal Eduardo Bolsonaro sobre um possível novo AI-5.

Logicamente que devemos interpretar a frase do Debutado e salientar o “possível” e não entender que será exatamente isso que de fato irá acontecer.

E ainda que a frase dele tenha sido infeliz, pois rendeu muitas críticas, e posteriormente ele tenha pedido desculpas, devemos ficar atentos a esse tipo de situação.

Já vimos que existe um apoio por parte de algumas pessoas a volta dos militares ao poder, como se isso fosse resolver os problemas do país e acabar com a corrupção. Mas isso não é tão simples assim.

O tempo não para faz parte do álbum ao vivo de Cazuza que leva o mesmo nome da música. Lançado em 1988, pós termino do regime militar.

Ao pesquisar as análises da música, como estamos fazendo, não é difícil perceber que todos que escrevem sobre ela o fazem a partir de uma reflexão mais política.

Isso talvez ocorra pelo fato de o rock ser um estilo de música que, assim como o rap, tem uma pegada mais de protesto.

Muitas músicas de rock têm esse tom mais politizado, por isso durante muitos anos era visto como música para jovens rebeldes.

E não era isso que o Cazuza era um rebelde da sua época que buscava através da música expressar um sentimento de revolta com o que via no país e no mundo?

Repare como “O tempo não Para’ é cantado. Subindo o tom de revolta conforme a música avança. 
Em forma de um grito raivoso que busca mostrar a indignação com o que estava acontecendo. Assim como fazemos hoje.

A diferença é muitos querem fazer isso através de redes sociais e sem embasamento nenhum. E apenas repetindo o que se vê na tv.

Foi assim que acontece antes e assim está acontecendo agora.

A história se repete


Historiadores sabem o quanto a história funciona em ciclos. Acreditamos que, devido a era da informatização e conectividade, esses ciclos podem estar se repetindo, mas agora mais rápido.

Por que isso? Em 1962 a opinião pública em sua maioria, abraçou a ideia de “temor” comunista e passou a hostilizar, principalmente, o governo de João Goulart.

Muito se falava em comunismo e comunistas e, cá entre nós, vivíamos o apogeu comunista no mundo. A “ameaça” era real (não sei se ameaça ou eminência, não devemos tratar como bonzinhos e malvados).
imagem sobre o comunismo nos anos 60



Entretanto muitos parecem ter esquecido os velhos métodos e os velhos fantasmas e começamos a ver, espalhados com a velocidade vertiginosa das redes sociais, vídeos e campanhas (ao que tudo indica, particulares, sem vínculo com a situação governamental) de pessoas instigando ações como o “fechamento do congresso”, “ação militar” e “AI-5”.

E, se pararmos para observar o discurso de alguns, existe um novo “temor comunista”, principalmente quando observamos as situações de países vizinhos como Venezuela, Cuba e, atualmente, os protestos relacionados a crise no Chile.

Entretanto a diferença é que, agora, essas ações partem do governo que quer moldar a opinião pública, para se blindar, em um apoio massivo.

Em quase todo discurso do atual governo vemos algo relacionado ao comunismo e de que existe a intenção de transformar o Brasil em uma “nova” Cuba.

Infelizmente os problemas que surgiram nos últimos anos, são basicamente relacionados a corrupção que eclodiu no país durante um governo de esquerda, o que abriu a possibilidade para que discursos assim voltem à tona.

E, o principal canal de formação de opiniões, é oposição ao governo, como em raríssimas vezes aconteceu na história do nosso país: a Rede Globo.

Não estamos dizendo para que se condene o governo, a internet ou a Globo, pois ainda que este último seja um grupo de comunicação, e deveria trabalhar para isso, lembremos que é uma empresa que visa lucro e tem seus próprios interesses. 

Estamos aqui sugerindo que tentemos ser críticos com as notícias, com os vídeos e com a internet. 

Não confiar em ninguém deveria ser a palavra de ordem.
Sempre que uma grande crise aparece muitas pessoas são levadas ao extremo e apoiam coisas que não deveriam acontecer.

Não podemos esquecer que foi o discurso contra o comunismo que abriu o caminho para o regime militar que matou milhares de pessoas.

Analisem a situação de maneira cética e com os pés no chão. E lembrem-se: não se pode confiar em um governo de apenas um homem só.

E saiba que ainda estão rolando os dados!!



Klopp e Liverpool: a simbiose perfeita


Jürgen klopp: Google imagens


Costumamos olhar para o passado ao relembrar de jogadores que fizeram história ou marcaram sua passagem por um time de futebol.

Da mesma forma, alguns técnicos conseguiram entrar para história por alguma inovação tática, maneira de jogar ou característica própria.

Como exemplo nacional temos Telê Santana ou “Mestre Telê” como a torcida do São Paulo gosta de chamá-lo.

Mas Telê Santana não ficou apenas na memória da torcida tricolor pelos títulos conquistados e por ter elevado o status do clube, mas pelo trabalho que buscava desenvolver com seus times.

Referência maior é a famosa seleção brasileira de 1982 que, mesmo não ganhado a Copa do Mundo, entrou para a história do futebol mundial como uma das maiores seleções que existiu.

Há alguns anos atrás foi a vez do espanhol Pep Guardiola, dirigindo o Barcelona, se tornar uma referência entre os técnicos e amantes de futebol moderno e bem jogado.

Buscando sempre o gol e dando importância a posse de bola, Guardiola dirigiu um dos grandes times da história do futebol e, de certa forma, transformou o futebol atual, fugindo daquela coisa pragmática que pensa apenas em resultado.

Se o Barcelona tem o status que tem atualmente, muito se deve a Pep Guardiola.
Obviamente que o resultado é importante, mas no futebol existem coisas a mais a se pensar.
Por isso a construção desse texto, pois há alguns anos um outro treinador vem ganhando destaque no âmbito mundial, o alemão Jürgen Klopp.

Klopp foi zagueiro enquanto jogador, defendeu o Mainz 05 da Alemanha. Mesmo não sendo brilhante, se destacava pela vontade, inteligência e profissionalismo. Como jogador Klopp atuou 325 vezes e marcou 52 gols.

Em 2001, começou a carreira como treinador no próprio Mainz, e conseguiu o feito de subir a equipe para a primeira divisão e chegar a uma competição europeia pela primeira vez.

No ano de 2008 Klopp chegou ao Borussia Dortmund e conseguiu rivalizar durantes os anos seguintes com o maior clube da Alemanha, o Bayern de Munique.

Foi bicampeão da Bundesliga e venceu duas vezes a Copa da Alemanha, além de chegar outras três vezes a final.

Só não foi capaz de vencer a Champions League temporada 2012/2013 contra o rival alemão. Perdendo a final em Wembley por 2 a 1.

Mas foi em 2015 que veio o maior desafio da carreira do treinador até então, comandar o Liverpool e leva-lo ao protagonismo europeu novamente.

De volta ao protagonismo

Mesmo sendo campeão da Champions League em 2005, o Liverpool passou os últimos anos sem ser protagonista na Inglaterra.

Viu times de menores expressão como Chelsea e Manchester City crescerem e o maior rival, o Manchester United, dominar o cenário nacional se tonando o maior campeão do campeonato inglês.

De primeiro grande clube da Inglaterra, se tornou um coadjuvante de luxo, grande em história, mas sem protagonismo.

Desde que o campeonato inglês mudou seu formato, hoje como a Premier League, o time da terra dos Beatles não conseguiu vencer nenhuma vez, se limitando apenas em vencer algumas copas.

Em 2010 o clube foi comprado por um grupo americano, dono também de outras equipes esportivas, como o Boston Red Sox, time americano de beisebol.

Com o tempo o time foi voltando a ser respeitado e temido, batendo na trave na temporada 2013/2014 ficando em segundo lugar. O campeão foi o Chelsea.
Entretanto, foi quando Klopp chegou que a equipe mudou de patamar definitivamente. O alemão parece que entendeu melhor que os treinadores anteriores como o clube deve ser.

Vemos hoje uma simbiose perfeita.


Torcida, time e treinador parecem ter o mesmo espirito quando o Liverpool joga. Dentre as maiores viradas até o momento, o jogo de volta das quartas de finais da UEFA Europa League, na temporada 2015/2016 contra o Borussia Dortmund.

Vitória por 4 a 3 em casa, após estar perdendo por 3 a 1.

E a goleada, na temporada passada contra o Barcelona, na semifinal da Champions League. Derrota por 3 a 0 em Barcelona e vitória em Anfield por 4 a 0, com uma atuação fantástica de toda a equipe, em um jogo que a grande maioria dava a classificação do Barça como certa.

O título da Premier League ainda não veio, mas o da Champions League finalmente aconteceu para o treinador alemão, que já começava a ganhar fama de pé frio em jogos mata-mata.

Após duas derrotas nas finais da Champions, contra Bayern e Madrid, a segunda já no comando do Liverpool, após um jogo desastroso do goleiro Loris Kariius, finalmente aconteceu o título europeu.
Vitória contra o rival inglês Tottenham, em Madri, por 2 a 0.

Mas o que faz do treinador especial?

A simbiose perfeita

Primeiro passo foi entender que para conquistar os resultados esperados é preciso tempo e muito trabalho.

Quando chegou ao clube, Klopp pediu um tempo para que os resultados começassem de fato a acontecer. Disse que três anos seria o tempo ideal para que algo mude de fato, e foi isso que aconteceu.

No ano seguinte veio a primeira final, pela UEFA Europa League, infelizmente derrota.

Na temporada 2017/2018 final da Champions League e outra derrota, mas o clube já apresentava sinais de crescimento e buscas por coisas maiores.

E em 2018/2019 veio o tão aguardado título.  O 6° do clube na Champions, se tornando o terceiro maior vencedor do torneio, atrás apenas do Real Madrid, 13 títulos e Milan com 7.

E para se chegar a duas finais de Champions seguidas e conquistar o título foram necessárias pequenas mudanças na equipe principal.

Basta observar a diferença que aconteceu no sistema defensivo da equipe após a chegada do zagueiro Virgin Van Dijik e do goleiro Alison. Ambos deram mais segurança ao time e aos torcedores.

Carismático e sempre com sorriso no rosto, dificilmente vemos o técnico mal-humorado. Logicamente que algumas derrotas o deixam enfurecido, afinal ninguém gosta de perder.

Mas não dá para não olhar para a beira do campo e não prestar atenção ao treinador, que passa o tempo todo se movimentando e gritando com a equipe, mesmo quando o time está vencendo.
Klopp é um personagem a parte nos jogos dos reds. O tempo todo inquieto, parece, às vezes, um torcedor olhando para o seu time do coração jogar.

E dentro do campeonato inglês são poucos os clubes que possuem uma torcida tão intensa quanto a do Liverpool. E mesmo na Europa é difícil uma torcida que se iguale, apenas, talvez, dentro das grandes ligas, a do Dortmund.

Muito se fala do clima dentro do estádio de Anfield. O hino e lema do clube “You’ll never walk alone” (Você nunca caminhará sozinho), antes dos jogos é quase que um ritual religioso.

Não apenas motiva a equipe quando ela entra em campo, como também mostra ao adversário o que ele irá enfrentar. 

E não é apenas a forma como o time joga que chama a atenção dos torcedores e da imprensa do mundo todo.

Além do futebol apresentado, a entrega da equipe durante os 90 minutos e a intensidade com que propõe o jogo chamam a atenção. E isso é tudo o que um torcedor apaixonado quer ver, dedicação ao seu clube de coração.

Tudo isso é reflexo da forma como o treinador enxerga o futebol e como lida com os profissionais com que trabalha durante todos os dias, e não estamos falando apenas dos jogadores, mas da comissão técnica e dos funcionários do clube.

O treinador faz questão de apresentar os jogadores que chegam aos funcionários do clube e mostrar como cada um faz parte de algo maior.

Saindo um pouco do futebol, Jürgen Klopp é o líder moderno com que muitos desejam trabalhar. 
Sabe cobrar um colaborador e sabe, acima de tudo, como motivá-lo, respeitá-lo e tirar o melhor de cada um.

Klopp prioriza o coletivo, enxerga o que falta e busca a qualidade ao invés da quantidade. Mas isso não impede que as melhores qualidades de cada um sejam apagadas.

O desejo de vencer sempre, a força de vontade para se dedicar ao máximo e motivar todos de forma igual para que não ocorra um relaxamento.  

Elementos essências hoje para um líder, tanto no mundo corporativo e logicamente no mundo esportivo, que se tornou tão competitivo nos últimos anos.

Mesmo sendo o atual campeão da Europa, o Liverpool não perdeu a fome de vencer. Na atual temporada da Premier League são 10 jogos, com 9 vitórias e 1 empate.

Hoje o grande desejo dos torcedores do Liverpool é a Premier League. Vencer o título irá tirar um peso da consciência dos torcedores que querem um título nacional de expressão.

Obviamente que o caminho é bem difícil, principalmente quando se tem um Pep Guardiola dirigindo outra excelente equipe como o Manchester City como adversário direto.
Entretanto, Klopp já faz parte da história do clube e com certeza será um dos nomes citados quando, no futuro, os torcedores discutirem quais foram os profissionais que fizeram o clube ser ainda maior.

Hoje o Liverpool voltou a ser o que não foi nos anos 90. Grande e difícil de vencer.

Muitos treinadores passaram. Rafa Benitez deixou seu nome na história do clube ao ser campeão da Champions em 2005, principalmente da forma como a vitória ocorreu.

Mas atualmente vemos um cara que tem de fato a “cara” do clube. E observado os treinadores que temos atualmente, dificilmente vemos outro que possa dirigir o Liverpool.

Não sabemos o tempo que klopp ficará, mas já ficou claro que ele e o Liverpool tem mais do que uma simples relação entre um treinador com um time. Tem algo a mais.

Não é apenas futebol!!





Como ler um filme





Você já parou para pensar sobre um filme?

Costumamos ver um filme, mas em muitos casos focamos apenas na parte superficial de uma produção cinematográfica, como os efeitos e cenas de ação.

Em muitos casos são as capacidades técnicas apresentadas que tornam um filme bom, ao menos para grande parte das pessoas

Mas para quem quer aprender a ler um filme é interessante entender certos aspectos que o rodeiam.

O primeiro passo é entender o tempo e espaço que ele ocupa. Não apenas o tempo do filme em si, mas a situação do momento “real” em que vivemos.

Por exemplo, no atual momento estamos cercados por filmes de super-heróis baseados nas histórias em quadrinhos.

E temos alguns grandes nomes do cinema, como o diretor Martin Scorsese, que recentemente criticou a Marvel alegando que eles não fazem cinema. 

Pensando nisso, o que seria de fato o cinema?

O que é preciso para um filme ser bom e virar um clássico?

No caso dos filmes inspirados em quadrinhos, além dos efeitos especiais, necessários para a proporcionar uma aproximação maior com o que foi pensando dentro das HQs, temos, talvez, um aspecto mais psicológico e social.

Em uma época onde as relações pessoais definham e estamos em um mundo onde a falta de paciência gera a intolerância em vários níveis, sejam religiosos, de gênero ou raciais, precisamos mais do que nunca de um “herói” que nos salve desse mundo caótico.

Mas isso não parece ser consenso. Muitos filmes de heróis não se aprofundam em temas mais relevantes, ainda que apontem certos aspectos da nossa sociedade.

Suas motivações são baseadas praticamente na luta do bem contra o mal, tema que sempre norteou as histórias de heróis.

Entretanto o sucesso desses filmes pode ser motivado pelo desejo de voltar no tempo, quando éramos crianças e tudo era mais simples. As coisas que imaginávamos se tornaram “possíveis” graças ao cinema.

Por isso, ter um vilão convincente é tão ou mais importante para o filme do que o próprio herói.

Nesse aspecto é preciso certas motivações, o que só é possível com o roteiro bem escrito e que leve o personagem do ponto A para o Ponto B. E aí entramos no ponto em comum de todos os filmes, o roteiro.

É no roteiro que um filme terá o apoio necessário para transmitir uma mensagem, criar um diálogo interessante e aproximar a vida comum, de quem assiste, do que é apresentado em tela, com os personagens.

Ler um filme é compreender o que o diretor quer transmitir dentro de uma cena, um enquadramento, as escolhas da trilha musical e outros possíveis elementos que compõem toda a história a ser contada.

Hoje assistimos alguns filmes e os chamamos de antigo ou velho, mas devíamos tentar observá-lo com o olhar da época em que ele foi lançado.

É como os filmes que retratam a 2ª Guerra Mundial, sem a caracterização não for próxima ao que sabemos ou aprendemos, algo está errado.

Obviamente que para os jovens, menos os cinéfilos de plantão, ver um filme que não tenha ação é quase um martírio. Se for em preto e branco então nem se fala, por isso um bom roteiro é fator essencial.

Usando de bom exemplo para filmes em preto e branco e que chama muita atenção é o famoso Tempos modernos de Charlie Chaplin, muito usado pelos professores nas aulas de história.

O filme mostra um trabalhador que sofre com os reflexos da Revolução Industrial. Por isso da sua utilização, para poder explicar as mudanças que a sociedade viveu naquele período.

Mas ainda que o filme seja completamente mudo, as cenas são bem planejadas e claras, fazendo com quem assista saiba o que está se passando com o personagem principal.

E incrivelmente o filme continua atual e podemos traze-lo para o agora. Olhando hoje, temos a necessidade de estar sempre produzindo algo, como era no período da revolução industrial.

O que mudou foram apenas as formas de se produzir. Ainda que seja necessário o trabalho braçal, como apresentado no filme, encontrar soluções utilizando a criatividade é o que vem dominando o atual mercado de trabalho.

Ou seja, continuamos com a necessidade de produzir o tempo inteiro, o que gera alguns dos problemas atuais que tempos, como o estresse e desanimo.

É preciso estar sempre 100% em tudo. No trabalho, em casa, na escola. É quando vemos muitas pessoas frustradas por não conseguirem alcançar um objetivo.

A pressão por resultados ainda permeia a nossa sociedade.
Tempos modernos chama atenção, além da crítica social, pelo seu personagem principal, um homem simples que procura por trabalho.

É necessário que o ator dê, além de seu rosto, certas características para compor uma personagem, como a personalidade, hábitos, maneiras de pensar ou os jeitos de se comportar.

Tudo isso para que ele se aproxime de quem irá ao cinema ver o filme. Os valores morais ou até a falta deles, são partes fundamentais para nos identificarmos.

Exemplo maior, voltando aos filmes de heróis, é o personagem de quadrinhos Clark Kent/Superman.

Nos identificamos com ele porque inicialmente ele parece ser um cara comum, mas em segredo possui um poder extraordinário e que pode salvar o mundo, se tornando um exemplo e motivo de inspiração para as outras pessoas.

Quem de nós não gostaria de ser assim?

Além de roteiros, efeitos e personagens convincentes, as roupas ajudam a caracterizar um personagem.

As vestimentas ajudam a compor um personagem dando a ele, além de características do seu tempo e espaço, a personalidade necessária para que o personagem seja crível aos olhos de quem o observa.

Da mesma forma que você, ao utilizar determinado tipo de roupa, passa um modelo de imagem para as pessoas que estão ao seu redor.

Lembremos o Dr. Brown da trilogia De volta para o futuro com o seu jaleco e estilo “cientista maluco”. Ninguém o leva a sério, tirando o seu amigo Martin McFly, mas dentro do seu contexto fílmico ele se torna real.

Indiana Jones usa chapéu, bolsa e chicote, elementos que hoje são indissociáveis do personagem. E temos ainda o smoking do 007 e as roupas extravagantes do pirata Jack Sparrow em Piratas do Caribe.

Você sabe ou ao menos entende, se conhece essas histórias, o que elas significam e como estão ligadas aquele personagem.

Mas e você como faz para “ler um filme”?

Após sair da sala de cinema você apenas procura um lugar para ir comer? Ou fica repassando mentalmente a história e tentando entender cada frase dita?

Logicamente que muitos filmes são puro entretenimento e servem apenas para distração do atual cenário conturbado ao qual vivemos.

Mas se você sair se remoendo do cinema, tentando falar do filme com alguém, algo de diferente aconteceu e não foi apenas puro e simples prazer de estar ali por duas horas.

No geral são muitas as coisas a serem observadas em pouco espaço de tempo.

É preciso também um certo repertório por parte do observador, para poder entender referências ou até possíveis citações, portanto talvez seja necessário ver um filme mais de uma vez.

Entretanto ler um filme é um ótimo exercício para obter senso crítico. será como trabalhar com o que gosta, afinal quem não curte um bom filme?





A reflexão no filme Coringa



por: Vagner Melo

Se uma das funções de uma obra de arte é abrir espaço para reflexões dentro de uma sociedade ou meio ao qual está inserida, o filme “Coringa” consegue fazer isso de forma grandiosa.

No cinema, onde o alcance do público é maior, existe uma vantagem com relação as outras formas de arte, a sinergia criada entre filme e público torna a experiência fílmica ainda mais intensa.

Por isso, muitos filmes geram debates intensos sobre suas intenções ou mensagens que querem passar.

Dentro do universo dos quadrinhos o Coringa é talvez o vilão mais aclamado e amado pelo público, sendo até mais conhecido do que muitos heróis existentes por aí.

E levar o personagem para um público ainda maior, que pode até conhecê-lo pelo nome, mas não conhece sua história ou coisas da qual ele é capaz de fazer pode chocar um pouco, ainda mais dependendo da forma como isso pode ser mostrado.

Para quem for ver o novo filme, focado no palhaço do crime, e quer conhecer a nova “versão” usada para contar a origem do vilão, poderá ficar um pouco desconcertado.

Dirigido por Todd Phillips e com Joaquim Phoenix no papel principal, “Coringa” apresenta uma Gotham ainda mais decadente, se comparado as versões mostradas na trilogia Batman, do diretor Christopher Nolan.

Essa decadência influenciou, em grande parte, a violência e o crime que consumiu a cidade e potencializou o que havia de pior em algumas pessoas.

Dentre elas o personagem Arthur Fleck (Joaquim Phoenix), futuro Coringa, que além dos problemas psicológicos, ainda passa por todo um processo que, com o tempo, vai diminuindo qualquer possibilidade de melhora.

Quem for ao cinema esperando por entretenimento esqueça. O filme é desconfortável do começo ao fim.

Inserindo quem assiste ao mundo particular e problemático do vilão e mostrando como uma sociedade pode estimular o que há de pior nas pessoas.

As acusações sofridas pelo filme, dizendo que ele faz apologia à violência e pode incitar algumas pessoas a agirem da mesma forma que o vilão não parece ser a mensagem a ser mostrada no filme.

Afinal, a violência e a quantidade de crimes bárbaros que vemos por aí ultimamente, seja na TV, internet ou rádio não foram exatamente motivados por um filme. Tudo já acontece através das atitudes humanas.

O Coringa sempre foi um personagem que nunca demonstrou se importar com ninguém. A diferença desse “novo” para os antigos é que o Coringa Interpretado por Joaquim Phoenix tem sua “formação” muito mais explorada.  

Enquanto que no interpretado por Jack Nicholson surgiu um personagem mais caricato e voltado mais para o lado cômico, esse é introspectivo e não temos nem um gracejo ou piada.

Quando foi a vez de Heath Leadger no papel, sendo ele o mais adorado até aqui, o Coringa já surgiu como alguém pronto e que não via limites para o que pretendia fazer, querendo apenas “ver o circo pegar fogo”.

Talvez o que falte nesse novo Coringa seja a sua contraparte, o Batman, para que seja mostrando um pouco de esperança as pessoas.

Faltou a esperança de que algo melhor está por vir, a luz em um mundo escuro, alguém que estará lá para salvar o dia e ajudar as pessoas de bem.

Coringa os Reflexos da atualidade


Dizer apenas que um filme estimula a violência, por apresentar certas cenas que podem chocar quem o assista é ignorar muitas das coisas que vemos por aí, mas que não são mostradas e sim aproveitadas para vender.

Todd Philipps choca quando mostra a violência crua com que um ser humano pode atacar outra pessoa, ainda que seja apenas para se defender.

E talvez seja essa a ideia por de trás de toda a história, além de mostrar uma pessoa com problemas psicológicos, focar no quanto uma sociedade sem esperança pode gerar “líderes” distópicos.

Coringa sempre teve os seus capangas aqui, trazido para o mundo atual, poderia ser interpretado como os seus seguidores.

Pessoas que seguem, através de uma imagem, pensamento ou apoiam atitudes, acreditando que aquilo é o correto, mas não veem os problemas que aquilo pode gerar.

E não precisamos de um filme para ver isso, basta conhecer um pouco de história para conhecer as barbaridades que já foram cometidas entre os humanos.

Ainda que o cinema consiga influenciar certos comportamentos, coloca-lo apenas como um simples gatilho para atitudes reprováveis é ignorar certas características do humano.

O Coringa seria apenas a união de todos os elementos defeituosos que apresentamos, unido, ainda, aos problemas psicológicos que tiram todo o discernimento de certo ou errado.

O filme logo se tornou um bom motivo para várias discussões, focadas não apenas no personagem em si, mas na construção do personagem e se ele seria algo real.

Em quantas pessoas existem ao redor do mundo e que são deixadas de lado pela sociedade por não apresentarem o padrão vigente.

O que mostra como os quadrinhos conseguem criar personagens complexos que merecem um maior cuidado ao serem levados ao grande público, principalmente na forma como são mostrados.
Costumamos, ao ver um filme, nos colocar no lugar do personagem principal, e talvez seja por isso que ele incomoda tanto.

Estar no lugar de alguém que apresenta características sociais que confrontam nossos valores, mas que em alguns momentos você até entende suas motivações.

Na HQ de 1988 “A piada Mortal” de Alan Moore e Brian Bolland, já havia sido criada uma história para a transformação que gerou a loucura do palhaço do crime.

Vemos um cara relativamente comum, preocupado com seus problemas pessoais que após um dia ruim e um acidente sofrido, se transforma em um assassino lunático que não se importa com nada.

No filme seguimos o mesmo ponto, um cara comum com problemas e que em um certo momento da sua vida se transforma em outra pessoa.

Já vimos todo esse cenário mostrado antes e ainda assim muitos adoram o personagem, mas apenas agora, em um filme solo, discutiu-se a violência que ele pode conter.

É possível que toda a crítica e debate ocorra pelo personagem não ter sido pensado apenas dentro de um plano colorido como são os quadrinhos, mas no mundo real e com poucas pessoas com lado bondoso.

Talvez o que faltou possa ser explorado em uma possível continuação, o que duvido que acontecerá, mas seria interessante ver como reagiria a cidade de Gotham sem ter alguém para defendê-la ou como seria o Batman nesse cenário.

Coringa fez o público refletir, ainda que precise explicar certas coisas e conter os seus erros, mas como obra fílmica funcionou muito bem.

Coringa não é um filme para influenciar pessoas, mas mostra mais a fundo o pior lado que os seres humanos podem alcançar.

Uma consequência dos problemas que vão se acumulando e ninguém parece se importar, ou vemos e não fazemos nada, por estarmos anestesiados com tantas coisas ruins.





Surfista Prateado - Parábola

Surfista Prateado - Parábola



Muitas pessoas ainda acreditam que histórias em quadrinhos são feitas para crianças, mas isso é um grande engano.

Obviamente alguns personagens e histórias são voltados ao público mais infantil, só que alguns personagens, mesmo parecendo terem histórias de aventuras simples, trazem grandes reflexões.

Talvez o melhor exemplo, dentro do universo Marvel pensado por Stan Lee, é o Surfista Prateado, criado pelo autor em 1966. Por não ser um personagem de primeiro escalão o Surfista tem uma profundidade pouco vista em outros heróis.

Na história: Surfista Prateado - Parábola, lançado em 1989 em parceria de Stan Lee e Moebius, outro grande nome dos quadrinhos, temos a chegada de Galactus, o devorador de mundos à Terra. 

Sua chegada transforma o planeta em um caos e abre a possibilidade de falsos profetas brincarem com a crença e a fé da população em beneficio próprio.

O Surfista, que se sente na obrigação de defender a Terra, começa a questionar as atitudes humanas e tenta entender as razões que fazem com que as pessoas se voltem para o que é mais fácil.

Parábola mostra o lado escuro da humanidade, em como as pessoas reagem com violência quando confrontadas com suas crenças.

O Surfista Prateado, voz solitária em um mundo de caos, tenta mostrar que a força e o poder por si só não justificam a adoração cega. O amor a vida é o fundamento para um mundo melhor.

O quadrinho não é apenas uma história em feita em parceria de dois gênios, mas é uma reflexão filosófica através do Surfista Prateado sobre questões humanas, vida, fé, política e mídia.

E é interessante notar que Parábola foi publicado em dois volumes no ano 1989 e ainda hoje, ano de 2019 vemos os mesmos temas sendo abordados. Assistimos por exemplo, como a mídia é usada, em muitos casos, para vincular notícias tendenciosas, ideológicas e com interesses particulares.

A necessidade das pessoas em seguirem lideres sem ao menos entender o que de fato é dito e como muitos agem com violência quando encontram posições contrárias.

O Surfista Prateado – Parábola é atual e deveria ser uma das grandes referencias em leitura dos quadrinhos para mostrar as pessoas que Histórias em Quadrinhos não são apenas desenhos e balões.